quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Mil Facas

Por Lorena Cordeiro

Eu não me lembro de nada!
Eu só sei que acordei, coberta de água, e o frio cortava meu corpo como mil facas, de dentro pra fora...
Minhas memórias são só saudade, verdade, e no meu peito essa dor estranha queima, e o coração ainda teima, pulsando, por mais um minuto, um mês, um ano...
Eu me lembrei de algo agora. O ano acabou, você foi embora. Tão longe... E com os meses, a tristeza, no auge, me trouxe ao lugar mais profundo e mais frio, nesse mundo onde vem parar tudo que você deixou pra lá.
Você deixou pra lá.
Você me deixou pra lá.
Eu não lembrava de nada. Quem sou eu, quem foi você... E ainda derramei cada lágrima no meu ser que eu julguei te pertencer.
Eu sabia que a dor era culpa sua, mas não podia me lembrar do seu olhar.
Eu sentia que você estava em toda parte, sabia que cuidava da minha sorte, mas ainda não podia te perdoar.
Eu não lembrava de nada. Até ouvir seu sorriso, e o som da lágrima que caiu ecoando no abismo, um precipício, e minhas memórias e saudades me levaram ao início, àquela manhã chuvosa do mês de março, ou era abril?
Você andando rápido pra longe do frio, a camisa vermelha e o bermudão, e – meu coração saltou de alegria – o sapato azul! Que ironia!
Eu não lembro muito bem por quanto tempo te amei. De algum modo, você alterou meu tempo. Eu já não sei. Não sei como tudo começou.
Eu só sei que acordei, coberta de água, e o frio cortava meu corpo como mil facas, de dentro pra fora...

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