Sentia-se inútil por não conseguir escrever o que se passava. O que outras vezes parecia-lhe tão simples agora era quase um sofrimento. No entanto, forçava-se a retomar cada sentimento e pensamento e transformá-los em palavras para pôr no papel deitado sobre suas pernas.
Lembrava de mais cedo, quando o silêncio instalara-se nela e quis buscar alguma banalidade para que pudesse ouvir a voz das amigas que também se faziam tácitas. Mas o silêncio era mais do que físico e por mais que falassem, as três sentir-se-iam mudas.
Naquela noite havia apenas o silêncio no lugar do desejo, do amor, da amizade. E nem mesmo dava-se conta de que ela junto às amigas deixara-o entrar nas mentes e calar as palavras que nem mesmo sabiam ensejavam dizer. Talvez essa fosse uma daquelas situações em que deveriam se comunicar só pelo olhar, mas evitavam se olhar como se pudessem mesmo ler o pensamento umas das outras. Se se fitavam era com um forçado e lânguido brilho no olhar na tentativa de dissimular o que se passava.
Lembrava-se de como aqueles toques e olhares tinham se tornado conhecidos e queridos, de como o sentimento conquistara cada uma delas sem que nenhuma das três precisasse predispor-se a nada. Pensava em como era maravilhoso o que acontecia.
Percebendo-se confusa, tentou concentrar-se em um só ponto, um só acontecimento da noite sem sucesso. Não encontrava nem linearidade nem concisão em meio à torrente de pensamentos e sentimentos na qual se afogava cada vez mais na medida em que buscava a superfície. Mas a verdade é que olhando aquela face leitosa ao longe e pensando no quando se sentia completa, não se importava de afundar cada vez mais naquele oceano de sensações.
Ajeitou-se na cadeira e assustou-se ao perceber que já tinha uma página e meia escrita. Não percebera o tempo passar nem se mover a caneta.
Via pela janela o cintilado manto sentindo-se minúscula. Punha a ponta da caneta sobre o papel e sentia-se grande. Aquela era sua maneira de transcender. Escrevia e deixava de ser um corpo com fios de cabelo. Escrevia e tornava-se emoção.
Foi assim que se sentiu também mais cedo, embora não tivesse distinguido que emoção. Mas absorta em si e distante de qualquer coisa que se aproximasse da realidade, sentia que podia tudo e o céu, que antes era tão imenso, tornara-se tão pequeno como todas as outras coisas palpáveis. Por isso concentrava-se nas voláteis, que assim como as palavras, eram sereias visíveis. Talvez por isso as adorasse tanto. O fato de poder sentir, ouvir seu canto e não as ver despertava nela o interesse de sempre procurar a essência, mas nunca na ansiedade de realmente encontrar. Fazia do objeto de sua procura a própria ação. Era esse seu prazer. E como se seguir o inalcançável não fosse suficiente, escrevia agora sobre ele.
Prazer. Por tempo o viu distante. Tão inalcançável quanto seu objetivo. E que assimilou a ele o fim e ele, na verdade, era o caminho. Era isso, o caminho! Como não percebera? Parou a caneta, fechou os olhos e deixou que tudo fizesse sentido.
Um comentário:
Amizades e letras se complementam. escrever (e como você escreve bem) ajudam, realmente, a sanar muios males. São muitos os exemplos de quem não enlouqueceu ou resolveu SEUS PROBLEMAS NA SUBLIMAÇÃO DA ESCRITA.
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